YouTube vai reduzir transparência e dificultar pesquisas sobre seu sistema de recomendação de vídeos
Um dos pontos de debate sobre regulação das plataformas digitais, o entendimento sobre como funciona o sistema de recomendação de vídeos do YouTube vai ficar mais difícil a partir de agosto. A empresa do Google vai descontinuar o acesso à parte da consulta de sua API (sigla, em inglês, para interface para programação de aplicações) oficial que permite mapear quais são os conteúdos relacionados a um determinado vídeo.
O fim do chamado parâmetro relatedToVideoID foi comunicado nos últimos dias a pesquisadores que adotam a ferramenta e confirmado ao GLOBO pelo YouTube. O parâmetro é o principal indicativo disponível, ainda que tenha limitações, para chegar ao mais o próximo possível das sugestões feitas de forma automatizada pela plataforma, em uma espécie de auditoria do algoritmo, tido como uma “caixa preta”. A API é fundamental porque simplifica o trabalho de desenvolvedores e facilita a extração de dados.
A mudança representa um retrocesso na transparência, alertam especialistas no tema ouvidos pelo GLOBO, e deve impactar, na ponta, o monitoramento e estudo das “bolhas políticas” e da possível relação do algoritmo da big tech com o processo de radicalização. O tema se tornou foco de estudos nos últimos anos em meio à emergência de líderes de extrema-direita em todo o mundo.
Em nota, o YouTube afirmou que o parâmetro “não retorna mais resultados que refletem o produto atual” e que continua “a trabalhar em novas formas de aprofundar a transparência e colaborar com pesquisadores acadêmicos de todo o mundo”. Mas não indicou se e quando haverá uma substituição da ferramenta por outra.
Vias alternativas
Sem o parâmetro, os pesquisadores que pretendem analisar as recomendações de vídeo terão que lançar mão de outros métodos de coleta que são proibidos pelos termos de serviço do YouTube. O mais comum é criar um conjunto de bots (robôs) para assistir a vídeos na plataforma e registrar dados das recomendações. Os robôs simulam o uso da plataforma por um usuário. A análise, porém, não parte de dados oficiais do YouTube como o disponível na API.
Pesquisador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital (INCT.DD), João Guilherme Bastos dos Santos explica que a API automatiza e facilita análises. Ela permitiu por exemplo, que ele identificasse núcleos de vídeos antivacinas e antidemocráticos acessados por usuários brasileiros.
— A recomendação também está misturada a histórico pessoal e variáveis que não temos acesso, mas (a API) é um indicativo de como a plataforma conectaria os vídeos. A gente perde um elemento forte para entendimento dos nichos dentro do YouTube, do que algumas pessoas chamam de bolhas dentro do YouTube — aponta o pesquisador.
Fundador da consultoria Novelo Data, que faz monitoramento de canais extremistas no YouTube, Guilherme Felitti ressalta que a retirada da API dificulta o processo de auditoria do algoritmo da plataforma. Em 2022, Felitti e Bastos apontaram, por exemplo, a partir da análise de dados da plataforma, que o YouTube privilegiou vídeos da Jovem Pan, emissora que nos últimos anos deu uma guinada ao bolsonarismo, em recomendações a usuários que acessaram conteúdos de fontes oficiais sobre o processo eleitoral, como o canal do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
— A mudança coloca uma camada de dificuldade para centenas de pesquisadores — afirma Felitti. — Dificulta ainda mais o processo de auditoria do algoritmo para entender como a radicalização funciona.
Referência internacional em pesquisas do campo, o professor de novas mídias e cultura digital Bernhard Rieder, da Universidade de Amsterdã, afirmou ao GLOBO que a medida do YouTube é um “passo atrás”, especialmente se nada substituir o parâmetro. Ele aponta que a tecnologia “sempre foi problemática”, mas permitiu obter algumas informações sobre uma parte do sistema de recomendação. O pesquisador diz que, mais importante que isso, é a possibilidade de ter um vislumbre das práticas dos usuários a partir dos dados.
— (A mudança) torna mais difícil estudar as práticas do usuário no Brasil e em outros lugares. Como o Brasil é tão dependente das mídias sociais e um usuário intensivo do YouTube, cada redução no acesso a dados significa que temos menos insights sobre as coisas específicas que acontecem na plataforma, nos dando menos chances de entender a dinâmica da política brasileira — conclui Rieder.
A decisão do YouTube ocorre pouco depois de outra big tech, o Twitter, limitar a versão gratuita da sua API e anunciar planos pagos de acesso, após sua compra por Elon Musk. A medida também gerou críticas de pesquisadores por prejudicar a coleta de dados e dificultar pesquisas focadas, entre outros temas, em analisar fake news e discurso de ódio.
No caso do Brasil, o anúncio do YouTube também coincide com a tramitação do PL das Fake News na Câmara, que busca regulamentar as plataformas digitais, alvo de ataques e críticas do setor. A última versão do texto prevê a possibilidade de abertura das informações dos provedores para pesquisadores, com acesso gratuito às APIs, com objetivo acadêmico, desde que observados os segredos comercial e industrial. O artigo em questão inclui o acesso a informações sobre recomendação na lista de dados a serem fornecidos.
Professor de Estudos de Mídia da PUC-Rio, Marcelo Alves acrescenta que a medida do YouTube mostra a relevância da regulamentação e afirma que o sistema de recomendação da plataforma é ponto de interesse porque é nesse aspecto que ela deixa de ser “neutra” e passa a atuar na curadoria de conteúdos.
— A forma como é feita a retirada é muito problemática, reduz a transparência e a possibilidade de compreender como funciona a recomendação, se um vídeo problemático é ativamente recomendado. Se fosse somente uma revisão, a plataforma poderia inserir uma melhoria daquele ponto para fornecer o dado mais próximo da realidade, mas se tira o acesso a um dado importante sem oferecer nada no lugar — diz Alves.